Indice - compilado por Beraldo Figueiredo

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108.1.2 - AS CRUZADAS

108.1.2.1 - A ORDEM DOS TEMPLÁRIOS:

A Ordem do Templo foi fundada por Hugo de Payens após a Primeira Cruzada, em 1119, com a finalidade de defender a Terra Santa dos ataques dos maometanos, mantendo os reinos cristãos que as Cruzadas haviam fundado no Oriente.

Os seus membros faziam voto de pobreza e seu símbolo passou a ser um cavalo montado por dois cavaleiros. Em decorrência do local de sua sede (junto ao local onde existira o Templo de Salomão, em Jerusalém) do voto de pobreza e da fé em Cristo surgiu o nome "Pobres Cavaleiros de Cristo e do Templo de Salomão".

A regra dessa ordem religiosa de monges guerreiros (militar) foi escrita por São Bernardo. A sua divisa foi extraída do Livro dos Salmos: "Non nobis, Domine, non nobis, sed nomini Tuo da gloriam" (Sl 115,1) que significa "Não a nós, Senhor, não a nós, mas ao Vosso nome dai a glória".

O seu crescimento vertiginoso, ao mesmo tempo que ganhava grande prestígio na Europa, deveu-se ao grande fervor religioso e à sua incrível força militar. Os Papas guardaram a ordem acolhendo-a sob sua imediata proteção, excluindo qualquer intervenção de qualquer outra jurisdição fosse ela secular ou episcopal. Não foram menos importantes também os benefícios temporais que tal ordem recebeu dos soberanos da Europa.

O poder da Ordem tornou-se tão grande que, em 1139 que o papa Inocêncio II emitiu um documento declarando que os templários não deviam obediência a nenhum poder secular ou eclesiástico, apenas ao próprio papa.

fonte: Wikipédia

A ORDEM DO TEMPLO

Por Hélio Carvalho de Nóbrega

Quase que em paralelo com a Rosacruz e Maçonaria, a Ordem dos Cavaleiros do Templo ou dos Templários, muito embora independente na filosofia, possui estreito relacionamento social, político e religioso com a Igreja católica primitiva.

Foi fundada na Palestina no ano de 1.118. Seus membros usavam mantos brancos com uma cruz vermelha e tinham uma vida austera, porém não celibatária. Entregavam os bens terrenos à Ordem, que assim tornou-se poderosa e rica. Empregava milhares de servidores de origem plebéia, e a sua hierarquia compunha-se de cavaleiros, de cavaleiros auxiliares, capelães e servos. Os cavaleiros eram a minoria e necessariamente tinham de per-

tencer à nobreza.          .

Após 200 anos de existência, tornou-se a maior organização bancária do mundo. A maioria dos cavaleiros e servidores não gozava de reputação exemplar, mas é incontestável que possuíam uma ciência secreta.

A fim de confiscarem as riquezas da Ordem e destruírem o seu poder, o rei da França - Felipe, o Belo - e o Papa Clemente V uniram-se para, em 13 de outubro de 1307, ordenarem a detenção de todos os templários. O Grão Mestre da Ordem e os cavaleiros, homens eminentes,

foram acusados das mais grotescas e inverossímeis acusações, como canibalismo e idolatria. Na França, foram torturados e dizimados aos milhares. Na Espanha, Inglaterra e Portugal, a Ordem foi liquidada, mas sem esses cruéis excessos. Após 5 (cinco) anos e meio de prisão e terríveis torturas, o seu Grão-Mestre - Jacques de Molay-foi queimado vivo em Paris, junto de Pont-Neuf. As suas últimas palavras foram proféticas:

"A França recordar-se-á dos nossos últimos momentos; morremos inocentes. O decreto que nos condena é um decreto injusto, mas nos céus existe um Supremo Tribunal ao qual o fraco nunca faz apelo em vão. Cito perante esse tribunal, num prazo de 40 dias, o Pontífice Romano. Oh! Filipe, meu rei, a ti em vão te perdoa, porque a tua vida está condenada pelo tribunal de Deus. Espero-o no prazo de 1 (um) ano!"

O Papa Clemente V morreria de um mal desconhecido 31 dias após essas palavras. O rei Filipe, antes de um ano, perdia a vida em meio a insuportáveis sofrimentos. E a maior parte dos perseguidores da Ordem do Templo viria a morrer prematuramente de forma violenta.

Não resta dúvidas de que os templários foram vítimas de uma trama bem elaborada. Também não restam dúvidas de que a Ordem dividia-se em duas: um círculo pequeno e fechado, e outro grande e aberto.

Estes círculos constantemente interligavam-se e tinham por lema a defesa da "Terra Santa", a "busca do Santo Graal", e a "libertação do Santo Sepulcro" .

Fazia parte da doutrina secreta, modo de vida e vivência espiritual, a luta interior, na qual a luta nas batalhas, a luta do corpo, era apenas uma projeção exterior desta meta e doutrina. Professavam o caminho atribuído ao guerreiro. Assim: podemos entender que o Santo Graal, a libertação do Santo Sepulcro e Terra Santa são apenas símbolos esotéricos de uma realidade transcendental, da qual faz parte contatos e trocas de informações metafísicas com o sufismo islâmico, a demonstrar, de forma inequívoca, que para além da história conhecida existe outra mais profunda e complexa ainda.

Fonte:Revista Caminho Espiritual - Edição 17

 

08.1.2.2 - CRUZADAS:

Chama-se cruzada a qualquer um dos movimentos militares, de caráter parcialmente cristão, que partiram da Europa Ocidental e cujo objetivo era colocar a Terra Santa (nome pelo qual os cristãos denominavam a Palestina) e a cidade de Jerusalém sob a soberania dos cristãos. Estes movimentos estenderam-se entre os séculos XI e XIII, época em que a Palestina estava sob controle dos turcos muçulmanos.

 

Cruzada Popular ou dos Mendigos (1096)

A Cruzada Popular ou dos Mendigos (1096) foi um acontecimento extra-oficial que consistiu em um movimento popular que bem caracteriza o misticismo da época e começou antes da Primeira Cruzada oficial. O monge Pedro, o Eremita, graças a suas pregações comoventes, conseguiu reunir uma multidão. Entre os guerreiros, havia uma multidão de mulheres, velhos e crianças.

 

 

 

 

Auxiliado por um cavaleiro, Guautério Sem-Haveres, os peregrinos atravessaram a Alemanha, Hungria e Bulgária, causando desordens e desacatos, sendo em parte aniquilados pelos búlgaros. Ainda no caminho, seus seguidores tinham criado tumultos, massacrando comunidades judaicas em cidades como Trier e Colônia, na atual Alemanha.

 

Primeira Cruzada (1096-1099)

Rota dos líderes da primeira cruzada, por William Shepherd, Atlas Histórico, 1911.Foi chamada também de Cruzada dos Nobres ou dos Cavaleiros. Ao pregar e prometer a salvação a todos os que morressem em combate contra os pagãos (leia-se, muçulmanos) em 1095, o Papa Urbano II estava a criar um novo ciclo. É certo que a ideia não era totalmente nova: parece que já no século IX se declarara que os guerreiros mortos em combate contra os muçulmanos na Sicília mereciam a salvação. Mas desta vez a salvação não era prometida numa situação excepcional.

 

 

Segunda Cruzada (1147-1149)

Em 1145, foi pregada uma nova cruzada por Eugénio III e São Bernardo. A perda do Condado de Edessa provocou a organização dessa cruzada. Desta vez foram reis que responderam ao apelo: Luís VII da França e Conrado III do Sacro Império, para nomear os mais importantes. Curiosamente, os contingentes flamengos e ingleses acabaram por conquistar Lisboa e voltar para as suas terras na sua maioria, uma vez que eram concedidas indulgências para quem combatia na Península Ibérica.

 

O exército de Conrado acabou esmagado pelos turcos num momento de repouso. O que sobrou juntou-se aos franceses, com o apoio dos templários. Com algumas dificuldades de transporte, mais uma vez uma parte do exército teve de ser abandonada para trás (sobretudo os plebeus a pé), e estes tiveram de abrir caminho contra os turcos.

 

Luís VII e Conrado em Jerusalém, depois de algumas discussões, acabaram por ser convencidos a atacar Damasco, mas ao fim de poucos dias tiveram que se retirar perante a ameaça de uma parte dos nobres fazê-lo por conta própria. O resultado desta Cruzada foi miserável (se excetuarmos a conquista de Lisboa), tendo sucesso apenas em azedar as relações entre os reinos cruzados, os bizantinos e os governantes muçulmanos amigáveis. Nenhuma nova cruzada foi lançada até a um novo acontecimento: a conquista de Jerusalém pelos muçulmanos em 1187. Os cristãos enfrentavam um adversário decidido, Saladino.

  

Terceira Cruzada (1189-1192)

A Terceira Cruzada, pregada pelo Papa Gregório VIII após a tomada de Jerusalém pelo sultão Saladino em 1187, foi denominada Cruzada dos Reis. É assim denominada pela participação dos três principais soberanos europeus da época: Filipe Augusto (França), Frederico Barbaruiva (Sacro Império Romano-Germânico) e Ricardo Coração de Leão (Inglaterra).

 

O imperador Frederico Barbaruiva, atendendo os apelos do papa, partiu com um contingente alemão de Ratisbona e tomou o itinerário danubiano atravessando com sucesso a Ásia Menor, porém afogou-se na Cilícia ao atravessar o Sélef (hoje Goksu). A sua morte representou o fim prático desse núcleo. Os reis de França e Inglaterra passaram o tempo todo a querelar-se, até que aquele se retirou.

 

Se Ricardo Coração de Leão conseguiu alguns actos notáveis (a conquista de Chipre, Acre, Jaffa e uma série de vitórias contra efectivos superiores) também não teve pejo em massacrar prisioneiros (incluindo mulheres e crianças). Com Saladino, teve um adversário à altura, combatendo e travando um subtil táctico. Em 1192, acabou-se por chegar a um acordo: os cristãos mantinham o que tinham conquistado e obtinham o direito de peregrinação, desde que desarmados, a Jerusalém (que ficava em mãos muçulmanas).

 

Se esse objectivo principal falhara, alguns resultados tinham sido obtidos: Saladino vira a sua carreira de vitórias iniciais entrar num certo impasse e o território de Outremer (o nome que era dado aos reinos cruzados no oriente) sobrevivera.

 

Quarta Cruzada (1202-1204)

O doge (duque) Dandolo, de Veneza, pregando a cruzada (Gustave Doré)A Quarta Cruzada foi denominada também de Cruzada Comercial, por ter sido desviada de seu intuito original pelo doge (duque) Enrico Dandolo, de Veneza, que levou os cristãos a saquear Zara e Constantinopla, onde foi fundado o Reino Latino de Constantinopla, fazendo com que o abismo entre as igrejas Ocidental e Oriental se estabelecesse definitivamente.

 

O Papa Inocêncio III apelou a uma cruzada em 1198 para conquistar Jerusalém (o objectivo falhado da Terceira Cruzada), mas os preparativos começariam dois anos depois. Vários grandes senhores trouxeram exércitos e estipularam um acordo com Veneza que transportaria essas tropas na sua frota em troca de uma quantia. O problema é que muitos dos senhores acabaram por não ir, e os que foram não tinham condições para pagar o valor estipulado (que era fixo).

 

A entrada dos cruzados em Constantinopla, de Eugène Delacroix.Foi criado um novo acordo então: os cruzados conquistariam Zara, uma cidade veneziana na Dalmácia que se revoltara, em troca de um adiamento do pagamento. Entretanto chegaram notícias de Bizâncio. O Imperador Isaac II fora derrubado pelo seu irmão Aleixo III e fora cegado. O filho de Isaac II, de nome Aleixo IV, conseguira fugir e apelara aos cruzados para o ajudarem: em troca de o colocarem no trono prometia-lhes dinheiro e os recursos do império para a conquista de Jerusalém. Ainda hoje os historiadores discutem se as coisas se passaram assim ou se foi uma justificação para o que se iria suceder.

 

Os cruzados aceitaram imediatamente uma vez que isso parecia resolver os seus problemas. Partiram em 1202. O Papa considerou que se atacassem território cristão (nomeadamente Zara) ficariam excomungados. A cidade foi conquistada e depois de deixarem passar o Inverno atacaram Constantinopla. A cidade resistiu, mas o imperador Aleixo III acabou por fugir com o tesouro da cidade.

 

Com novos impostos a ser lançados para pagar as promessas feitas aos cruzados, rapidamente a população ficou à beira da revolta. Aleixo V, um parente afastado fez um golpe matando Aleixo IV e colocando novamente na prisão Isaac II que fora libertado pelos cruzados e governara com o filho.

 

O Império Bizantino depois da Quarta Cruzada. O mapa mostra o Império Latino, O Império de Nicéia, Trebizond e Épiros. As fronteiras são muito incertas.Os cruzados decidiram então conquistar em proveito próprio o império, nomear um imperador latino e dividir os territórios. Aleixo fugiu com algum tesouro e a cidade foi saqueada pelos latinos durante três dias. Estátuas, mosaicos, relíquias, riquezas acumuladas durante quase um milénio foram pilhadas ou destruídas durante os incêndios. A cidade sofreu um golpe tão terrível que nunca mais conseguiu se recompor, mesmo depois de voltar a ser grega em 1261. E assim terminou a Quarta Cruzada, pois ninguém pensou mais em dirigir-se para Jerusalém: a maioria regressou com o que roubara, alguns ficaram com feudos no oriente.

 

Cruzada Albigense

A Igreja Católica, sob o comando do Papa Inocêncio III, sentiu-se ameaçada pelo grande número de pessoas que viam no catarismo um retorno ao cristianismo primitivo.

Os Cátaros afirmavam que a Igreja se corrompera desde os tempos de Constantino I e rejeitavam todos os sacramentos. O Catarismo considerava o poder papal uma espécie de paganismo sob uma máscara de cristianismo e, por isso, defendiam a volta à igreja simples do Novo Testamento.

 

Aparentemente eles consideravam o mundo material intrinsicamente mau, mas é importante destacar que grande parte das informações sobre a fé albigense chegaram até nós de fontes parciais, como a Inquisição, por exemplo. Por isso é difícil saber detalhes daquilo que eles realmente queriam. Contudo, certamente buscavam viver como viviam os cristãos no tempo em que o Novo Testamento foi escrito. O exército da Cruzada Albigense (muitos deles vagabundos, aventureiros e mercenários) criado pelo Papa Inocêncio III, foi incentivado pela Igreja a ver os cátaros como discípulos de Satanás que incentivavam o suicídio e proibiam o casamento e a procriação. Mas todos concordam que os Cátaros jamais juravam e condenavam a usura, conforme ensino de Jesus e dos apóstolos.

 

Em 1208, foi estipulada uma lei imposta também pela Inquisição que declarava o catarismo como herege e em 1209 foi feita a Cruzada Albiginese, um exército sedento de sangue mandado para aniquilar os Cátaros em Carcassonne (capital cátara) e em outros locais. Muitos albigenses foram lançados vivos nas fogueiras ordenadas pelo Papa Inocêncio III. Guardadas as devidas proporções, muitos comparam o holocausto albigense ao holocausto judeu praticado pela intolerância nazi na segunda guerra mundial.

 

Entretanto, há correntes de estudiosos que acreditam que o principal motivo para a reação foram as ondas de violência contra cristãos leais a Roma (culminando com o assassinato de um representante de Inocêncio III, que estava na região, no início do século XIII). A reforma da Igreja em si não era posta em questão, tratava-se de outra filosofia. Afinal, um retorno ao cristianismo primitivo também era estimulado concomitantemente por Francisco de Assis, na Itália, e não houve repressão da cúpula da Igreja ao movimento dele. A reforma e o despojamento na Igreja, portanto, não seriam o problema, e sim uma outra religião que surgia, com um grau exarcerbado de radicalismo, o que imediatamente teria causado espanto e provocado a reação do Papa e da maioria dos católicos franceses, alemães e ingleses.

 

Cruzada das Crianças (1212)

A Cruzada das Crianças, é um misto de fantasia e fatos. A lenda baseia-se em duas movimentações separadas com origem na França e na Alemanha, no ano de 1212. Esta cruzada teria ocorrido entre a Terceira e a Quarta Cruzada e seria um movimento extra-oficial, baseado na crença que apenas as almas puras (no caso as crianças) poderiam libertar Jerusalém. Foi um desastre, pois a maioria das crianças morreu no caminho, de fome ou de frio. As que sobreviveram foram vendidas como escravas pelos turcos no Norte da África. Alguns chegaram somente até a Itália, outros se dispersaram, e houve aqueles que foram seqüestrados e escravizados pelos muçulmanos.

 

Quinta Cruzada (1217-1221)

Também pregada por Inocêncio III, partiu em 1217 e foi liderada por André II, rei da Hungria, e por Leopoldo VI, duque da Áustria. Decidiu-se que para se conquistar Jerusalém era necessário conquistar o Egito primeiro, uma vez que este controlava esse território.

 

Desembarcados em São João D'Acre, decidiram atacar Damietta, cidade que servia de acesso ao Cairo, a capital. Depois de conquistar uma pequena fortaleza de acesso aguardaram reforços e meteram-se a caminho. Depois de alguns combates, e quando tudo parecia perdido, uma série de crises na liderança egípcia permitiram aos cruzados ocupar o campo inimigo. O sultão acabou por oferecer o reino de Jerusalém e uma enorme quantia se os cristãos retirassem; o cardeal Pelágio, que se tornara num dos chefes da expedição, acabou por convencer os restantes a recusar.

 

Começaram a cercar Damietta e depois de algumas batalhas sofreram uma derrota. O sultão renovou a proposta, mas foi novamente recusada. Depois de um longo cerco, que durou de fevereiro a novembro, a cidade caiu. Os conflitos entre os cruzados agudizaram-se e perdeu-se tanto tempo que os egípcios recuperaram forças. Reforços até 1221 chegaram aos cristãos. Lançaram-se numa ofensiva, mas os muçulmanos foram retirando e levando os cruzados a uma armadilha; sem comida e cercados acabaram por ter de chegar a um acordo: retiravam-se do Egito e tinham suas vidas salvas.

 

Sexta Cruzada (1228-1229)

Foi liderada pelo imperador do Sacro Império Frederico II, que tinha sido excomungado pelo Papa. Ele partiu com um exército que foi diminuindo com as deserções, e uma semi-hostilidade das forças cristãs locais devido à sua excomunhão pelo Papa. Aproveitando-se das discórdias entre os muçulmanos, Frederico II conseguiu, por intermédio da diplomacia, um tratado com os turcos que lhe concedia a posse de Jerusalém, Belém e Nazaré por dez anos. Mas a derrota dos cristãos em Gaza fê-los perder os Santos Lugares em 1244.

 

Sétima Cruzada (1248-1250)

Foi liderada pelo rei da França Luís IX, posteriormente canonizado como São Luís. Ele desembarcou diretamente no Egito e, depois de alguns combates, conquistou Damietta. Novamente o sultão ofereceu Jerusalém e novamente foi recusado. Em Mansurá, depois de quase terem vencido, os cruzados são derrotados pela imprudência do irmão do rei, Roberto de Artois. Depois de uma retirada desastrosa, o exército puramente rendeu-se. Luís IX caiu prisioneiro e os cristãos tiveram de pagar um pesado resgate pela sua libertação. Somente a resistência da rainha francesa em Damietta permitiu que se conseguisse negociar com os egípcios. Luís ficou mais algum tempo e conseguiu salvar o território de Outremer (indiretamente, as invasões mongóis deram o seu contributo).

 

Oitava Cruzada (1270)

Os egípcios da dinastia mameluca

 

em 1265, tomaram Cesaréia, Haifa e Arsuf;

em 1266, ocuparam a Galiléia e parte da Armênia e,

em 1268, conquistaram Antioquia.

O Oriente Médio vivia uma época de anarquia entre as ordens religiosas que deveriam defendê-lo, bem como entre comerciantes genoveses e venezianos.

 

O rei francês Luís IX retomou então o espírito das cruzadas e lançou novo empreendimento armado, a Oitava Cruzada , em 1270, embora sem grande percussão na Europa. Os objetivos eram agora diferentes dos projetos anteriores: geograficamente, o teatro de operações não era o Levante mas antes Túnis, e o propósito, mais que militar, era a conversão do emir da mesma cidade norte-africana.

 

Luís IX partiu inicialmente para o Egito, que estava sendo devastado pelo sultão Baybars. Dirigiu-se depois para Túnis, na esperança de converter o emir da cidade e o sultão ao Cristianismo. O sultão Maomé recebeu-o de armas nas mãos. A expedição de São Luís redundou como quase todas as outras expedições, numa tragédia. Não chegaram sequer a ter oportunidade de combater: mal desembarcaram as forças francesas em Túnis, logo foram acometidas por uma peste que assolava a região, ceifando inúmeras vidas entre os cristãos, nomeadamente São Luís e um dos seus filhos. O outro filho do rei, Filipe, o Audaz, ainda em 1270, firmou um tratado de paz com o sultão e voltou à Europa. Chegou a Paris em maio de 1271 e foi coroado rei, em Reims, em agosto do mesmo ano.

 

Nona Cruzada (1271 - 1272)

A Nona Cruzada é, muitas vezes, considerada como parte da Oitava.

 

Em 1268, Baybars, sultão mameluco de Egito, havia reduzido o Reino Latino de Jerusalém, o mais importante Estado cristão estabelecido pelos cruzados, a uma pequena faixa de terra entre Sidão e Acre.

 

Alguns meses após a morte de Luís IX, na Oitava Cruzada, o príncipe Eduardo da Inglaterra, depois Eduardo I, comandou os seus seguidores até Acre. Em 1271 e inícios de 1272, conseguiu combater Baybars, após firmar alianças com alguns governantes da região adversários dele. Em 1272, estabeleceu contatos para firmar uma trégua, mas Baybars tentou assassiná-lo, enviando homens que fingiram buscar o batismo como cristãos. Eduardo, então, começou preparativos para atacar Jerusalém, quando chegaram notícias da morte de seu pai, Henrique III. Eduardo, como herdeiro ao trono, decidiu retornar à Inglaterra e assinou um tratado com Baybars, que possibilitou seu retorno e, assim, terminou a Nona Cruzada.

 

Acontecimentos Posteriores

O equilíbrio na região permaneceu frágil. Os anos seguintes viram um aumento das demandas dos Mamelucos, como também aumentaram as perseguição aos peregrinos, contrariando os termos da trégua. Em 1289, o Sultão Qalawun juntou um grande exército, investiu sobre o que restava do Condado de Trípoli, e, finalmente, cercou a capital e tomou-a depois de um sangrento assalto. O ataque a Trípoli, porém, foi particularmente devastador para os Mamelucos, porque a resistência Cristã alcançou proporções fanáticas e Qalawun perdeu seu filho primogênito e mais capaz na campanha. Ele esperou outros dois anos para recuperar sua força.

 

Em 1291, um grupo de peregrinos de Acre foi atacado e, em represália, mataram dezenove comerciantes muçulmanos em uma caravana síria. (Outra versão diz que um grupo de soldados italianos católicos degolaram os islâmicos e eliminaram na mesma leva outro tanto de sírios cristãos.) Qalawun exigiu que eles pagassem uma quantia extraordinária em compensação. Quando nenhuma resposta veio, o Sultão usou isto como um pretexto para sitiar Acre, e acabar com o último estado Cruzado independente na Terra Santa.

 

Em abril de 1291, a cidade acordou cercada por mais de 200 mil soldados muçulmanos. A cristandade correu em socorro de um de seus pontos mais estratégicos na Terra Santa. Cavaleiros hospitalários, teutônicos e templários, somados a tropas inglesas e italianas, partiram para defender o porto de Acre. Em 18 de Maio de 1291, as forças turcas e egípcias tomaram a cidade de Acre. Qalawun morreu durante o ataque, deixando Khalil, o último membro sobrevivente de sua família, como Sultão Mameluco. Com Acre tomada, os Estados Cruzados deixaram de existir. Caía assim o último bastião dos europeus na Palestina.

 

Rapidamente, os poucos territórios estabelecidos pelos cruzados que restavam no Oriente Médio foram reconquistados pelos muçulmanos. Inicialmente, o centro do poder dos Cruzados foi movido para o norte (para Tortosa), e finalmente para a ilha de Chipre. Sua última posição segura na Terra Santa, a ilha de Rodes, foi perdida em 1302-1303. O período dos Cruzadas na Terra Santa estava terminado, quase duzentos anos depois de Papa Urbano II iniciar sua pregação.

 

Causas do Fracasso

Diversas razões contribuíram para o fracasso das Cruzadas, entre elas: os europeus eram minoria, em meio a uma população geralmente hostil; a opressão à população nativa fez com que o domínio fosse cada vez mais difícil; as diversas lutas entre os próprios cristãos contribuíram para enfraquecê-los enormemente. Todas, exceto a pacífica sexta Cruzada (1228-1229), foram prejudicadas pela cobiça e brutalidade; judeus e cristãos na Europa foram massacrados por turbas armadas em seu caminho para a Terra Santa. O papado era incapaz de controlar as imensas forças à sua disposição.

 

O legado das cruzadas

As cruzadas influenciaram a cavalaria européia e, durante séculos, sua literatura.

Se por um lado aprofundaram a hostilidade entre o cristianismo e o Islã, por outro estimularam os contatos econômicos e culturais para benefício permanente da civilização européia. O comércio entre a Europa e a Ásia Menor aumentou consideravelmente e a Europa conheceu novos produtos, em especial, o açúcar e o algodão. Os contatos culturais que se estabeleceram entre a Europa e o Oriente tiveram um efeito estimulante no conhecimento ocidental e, até certo ponto, prepararam o caminho para o Renascimento.

 

A jihad

No início do século XII, o mundo muçulmano tinha praticamente esquecido a Jihad, a guerra religiosa travada contra os inimigos do Islão. A explosiva expansão da sua religião durante o século VIII tinha-se reduzido às memórias de grandeza dessa época. Após a queda de Jerusalém, muitos proeminentes líderes religiosos, como o qadi Abu Sa’ ad al-Harawi, tentaram convencer o califa abássida a preparar a Jihad contra os firanji (de francos, que era como os muçulmanos se referiam aos europeus). No entanto, somente perto de duas décadas depois é que o sultão turco designou um proeminente militar, um atabeg chamado Zengi, para resolver o problema firanj.

 

Inimigos dos Cruzados, por Gustave Doré.Após a primeira cruzada, a moral dos muçulmanos estava de rastos. Os firanj detinham uma reputação de ferocidade entre os turcos e os árabes. Com os espectaculares sucessos em Antioquia e Jerusalém, os firanj pareciam quase imparáveis. Eles humilhavam o poderoso califado egípcio anualmente e faziam investidas em terras inimigas impunemente. Exceptuando os vassalos do Egito, a maioria dos aterrorizados líderes muçulmanos dos territórios mais próximos pagavam um pesado tributo para assegurar a paz. Zengi iniciou o longo e lento processo de modificar a imagem que os muçulmanos tinham dos firanj.

 

Tendo recebido o domínio das terras à volta de Mossul e Alepo, Zengi começou uma campanha contra os firanj em 1132 com a ajuda do seu lugar-tenente Sawar. Em cinco anos, conseguiu reduzir o número dos castelos importantes ao longo da fronteira do Condado de Edessa e derrotou o exército firanj em batalha. Em 1144 capturou a cidade de Edessa e neutralizou de forma efectiva o primeiro domínio estabelecido pelos Cruzados.

 

Zengi foi o primeiro líder muçulmano a enfrentar os firanj e que não só sobreviveu, como triunfou. Ele provou que os firanj podiam ser bloqueados. Os líderes de Bagdad aprovaram os sucessos de Zengi, e cedo um grande número de títulos precediam o seu nome: O Emir, o General, o Grande, o Justo, o Ajudante de Deus, o Triunfante, o Único, o Pilar da Religião, a Pedra de Base do Islão, …Honra de Reis, Apoiante de Sultões … o Sol dos Merecedores, … Protector do Príncipe dos Fiéis. Zengi gostou tanto da enchente de elogios, que insistiu que os seus arautos e escrivães utilizassem todos os títulos na sua correspondência.

 

Embora Zengi fosse um grande herói militar, ele foi simplesmente muito implacável e cruel nas suas campanhas contra Damasco para motivar os muçulmanos para uma guerra religiosa. Uma noite do ano 1146, encontrando-se ele alcoolizado, ao ter presenciado a um erro do seu eunuco particular, Lulu (pérola), e prometeu mandá-lo executar por incompetência. Mais tarde, enquanto Zengi dormia, Lulu pegou na adaga do seu dono e apunhalou-o repetidamente e fugiu, coberto pela escuridão da noite.

 

O herdeiro de Zengi, Nur al-Din, e o seu sucessor Salah al-Din (Saladino), eram extremamente piedosos, observando rigidamente a Sunna e os Pilares do Islão na sua vida pública e particular. Ambos rodearam-se de religiosos e teólogos e sábios em geral. Para além disso fizeram uma activa campanha para espalhar o fervor religioso e propaganda entre os seus súbditos muçulmanos. Com os seus exemplos de religiosidade, Nur al-Din iniciou – e o seu sucessor Salah al-Din cultivou – uma guerra religiosa, uma jihad, contra os Firanj. Enquanto que Zengi apenas podia contar com os seus soldados, o apelo à jihad atraiu os soldados muçulmanos de toda a Arábia, Egito e Pérsia. Este massivo exército permitiu Salah al-Din esmagar os firanj na Batalha de Hattin e enfraquecer as forças da Terceira Cruzada de Ricardo Coração de Leão.

 

A chama da Jihad de Salah al-Din deixou de arder em 1193, quando morreu. O irmão do sultão, Saphadin, não pretendia entrar em mais guerras, e quando Ricardo Coração de Leão foi para a Europa, o poderio militar dos firanj estava praticamente neutralizado e não mais necessidade de derramamento de sangue. A partir desta altura Saphadim acreditava que a coexistência pacífica com Firanj ainda era possível. Várias décadas mais tarde, uma jihad iria finalmente purgar os firanj da Síria e Palestina, embora até 1291, os muçulmanos ainda partilhassem uma pequena parte desse território com os firanj.

 

As cruzadas na conquista de Portugal

Quando surgiu o reino de Portugal, a cristandade agitava-se no fervor das Cruzadas do Oriente. Os portos de Galiza, que davam acesso a Santiago de Compostela, a barra do Douro e a vasta baía de Lisboa, eram pontos de escala das frotas de cruzados que do Norte da Europa seguiam para a Terra Santa. Quando, em 1140, Afonso I tentou a conquista de Lisboa, fê-lo com o auxílio de estrangeiros: setenta navios franceses que tinham entrado a barra do Douro e aportado a Gaia. Mas a conquista não foi possível devido às poderosas defesas que rodeavam Lisboa.

 

Em 1147, entra na barra do Douro, vinda de Dartmouth, uma frota de 200 velas, transportando cruzados de várias nações: alemães, flamengos, normandos e ingleses num total de 13 000 homens. Aproveitando este facto, D. Afonso Henriques escreveu ao bispo do Porto D. Pedro, pedindo-lhe que persuadisse os cruzados a ajudarem-no na empresa, prometendo-lhes o saque da cidade. No dia seguinte desembarcaram os cruzados em Lisboa, que tiveram as últimas negociações com D. Afonso, firmando o pacto. Depois da tomada da cidade, muitos cruzados ficaram por lá. Um capitão de cruzados, Jourdan, foi senhor e parece que o primeiro povoador da Lourinhã. Ao francês Allardo foi doada Vila Verde dos Francos, no distrito de Lisboa e concelho de Alenquer (perto da Serra do Montejunto).

 

Alguns anos depois, em 1152, partiu de Bergen uma esquadra de peregrinos do Norte da Europa, comandados por Rognvaldo III, rei das Órcades, com 15 navios e 2 000 homens. No inverno do ano seguinte, esta esquadra estava nas costas de Galiza onde pilhou algumas povoações. No verão de 1154 desce a costa portuguesa e ajuda o monarca na conquista de Alcácer do Sal. A empresa era rendosa, pois a cidade era o mais importante porto do Sado, cercada de pinhais, cujas madeiras eram utilizadas na construção de navios. A empresa falhou e o mesmo se deu anos mais tarde desta vez com a ajuda da frota do conde da Flandres composta de franceses e flamengos, e partiu para a Síria em 1157, aportando à barra do Tejo.

 

Em 1189 D. Sancho I entra em negociações com outra esquadra, que acabou por entrar na baía de Lagos e ocuparam o Castelo de Albur (Alvor), um dos mais fortes da região. Meses depois entra no Tejo outra frota alemã que tocara em Dartmouth recebendo muitos peregrinos e que ajudou a conquistar Silves. Capital de província, populosa, grande centro de comércio e de cultura, a cidade estava bem fortificada. A notícia destas vitórias chegou ao Norte de África e a resposta não se fez esperar.

 

Os mouros põem cerco a Silves, que não conseguiram tomar, partindo o califa em direcção a Santarém, tomando Torres Novas no caminho e pondo o cerco a Tomar. Perante esta situação, D. Sancho I pediu auxílio aos cruzados vassalos de Ricardo Coração de Leão, que se tinham reunido no Tejo, e foram ter a Santarém, que não chegou a ser atacada por causa da peste que vitimou a maior parte dos mouros.

 

No ano seguinte, os mouros regressam reconquistando Silves, a província de Alcácer, com excepção de Évora. Anos depois outra armada de cruzados, mesmo sem terem chegado a acordo com D. Sancho I, tomam Silves e saqueiam a cidade, prosseguindo para a Síria. Em 1212, com a derrota na Batalha de Navas de Tolosa, o reino mouro entra em decadência. Em 1217, entra nova frota alemã, e D. Soeiro, bispo de Lisboa, convenceu-os a conquistar Alcácer do Sal, navegando a esquadra por Setúbal, com os seus 100 navios. Alcácer resistiu durante dois meses até capitular. No princípio do Inverno regressa a frota ao Tejo, passando aí o resto do inverno.

 

 

Bibliografia

FLETCHER, Richard A. A cruz e o crescente: cristianismo e islã, de Maomé à Reforma. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2004.

WILLIAMS, Paul. O guia completo das cruzadas. São Paulo: Madras, 2007.

RUNCIMAN, Steven - A History of the Crusades V. II - The Kingdom of Jerusalem and the Frankish East (1100-1187). Cambridge at the University Press, 1952 (em inglês)

 

08.1.2.3 - Os dois lados das cruzadas 

 

Há quase mil  anos, o Ocidente trombou  com  o Oriente. O mundo cristão invadiu  o mundo muçulmano e  deu  origem  a  200  anos  de  guerra.  Só  dá  para  entender  essa  história  se  conhecermos  os  dois  lados dela..

  

No  mundo  pós-11  de  setembro,  a  simples  menção  dessa  palavra  causa  polêmica.  Após  o  ataque  às torres gêmeas, o presidente George W. Bush  teve de pedir desculpas por usar o termo "cruzada" para nomear sua     guerra contra o terrorismo.

  

Osama bin Laden aproveitou a gafe.         Em      seu pronunciamento, o terrorista   classificou   a   guerra   no   Afeganistão   de   "cruzada   religiosa   contra   os muçulmanos".  A  palavra  ressuscitava  dos  livros  de  história.  Só  faltava  Hollywood  se  interessar  pelo assunto. Não deu outra.

 

O  enredo  do  filme  Cruzadas,  de  Ridley  Scott,  que  está  chegando  aos  cinemas,  gira  em  torno  de  um ferreiro  que  se  torna  cruzado.  Em  tempos  de  Guerra  no  Iraque,  nada  mais  natural  que  um  filme  com tema tão espinhoso despertasse protestos antes mesmo do lançamento.

 

 

 

Em  agosto  de  2004,  o  jornal  The  New  York  Times  entregou  o  roteiro  de  Cruzadas  para  teólogos cristãos  e  islâmicos.  Os  cristãos  não  viram  problema,  mas  os  muçulmanos  acusaram  o  filme  de  estar cheio de erros.

 

Afinal,  o  que  foram  as  cruzadas?  Um  ato  de  fé  e  heroísmo?  Um  massacre  covarde?  "Não  faz  sentido buscar  hoje  bandidos  e  mocinhos",  diz  o  holandês  Peter  Demant,  historiador  da  USP.  "As  batalhas tiveram  significados  diferentes  para  o  Ocidente  e  o  Oriente".  Existem,  portanto,  duas  histórias  das Cruzadas.  Nada  melhor  do  que  narrar  essa  história  dos  dois  pontos  de  vista.  Como  você  poderá constatar  nos  dois  textos  que  correm  nas  páginas  seguintes,  as  versões  não  se  contradizem.  São olhares   diferentes   que   ajudam   a   entender   por   que,   nove   séculos   depois,   o   assunto   continua fascinando - e causando polêmica - nos dois lados do mundo.

  

O exército de Cristo

No  dia  27  de  novembro  de 1095, o papa Urbano II fez um  comício ao ar livre nas cercanias da cidade de  Clermont,  na  França.  Na  audiência,  além  de  muitos  bispos,  havia  nobres  e  cavaleiros.  Depois desse sermão, o mundo nunca mais seria o mesmo.

 

No   discurso,   o   papa   tentou   convencer   os   espectadores   a   embarcar   numa   missão   que   parecia impossível:  cruzar  três  mil  quilômetros  até  a  cidade  santa  de  Jerusalém  e  expulsar  os  muçulmanos, que   dominavam   o   lugar   desde   638.   Segundo   os   historiadores,   Urbano   II   deve   ter   usado   uma linguagem  vibrante  e  provavelmente  falou  dos  horrores  que  os  peregrinos  cristãos  à  Terra  Santa estavam  vivendo.  Do  alto  de  sua  autoridade  divina  de  substituto  de  São  Pedro  na  Igreja,  o  papa prometeu:  quem  lutasse  contra  os  infiéis  ganharia  perdão  de  todos  os  pecados  e  lugar  garantido  no paraíso.  Um  prêmio  tentador  no  imaginário  do  homem  cristão  medieval,  sempre  atormentado  pela ameaça de queimar no inferno.

 

A  reação  da  multidão  foi  imediata.  Gritos  de  "Essa  é  a  vontade  de  Deus"  começaram  a  ecoar.  A pregação  mal  havia  terminado  e  o  bispo  Ademar  de  Monteil,  num  gesto  provavelmente  ensaiado, ajoelhou-se  diante  do  papa  e  "tomou  a  cruz",  ritual  de  alistamento  em  que  o  voluntário  recebia  uma cruz   de   pano   que   deveria   ser   costurada   na   altura   do   ombro   do   uniforme   de   batalha.   Ademar embarcaria  na  primeira  cruzada.  Dali  em  diante,  aquela  cruz  passaria  a  identificar  os  "soldados  de Cristo", ou, simplesmente, "cruzados".

 

Segundo  os  historiadores,  a  intenção  do  papa  era  convocar  apenas  cavaleiros  bem  preparados.  Mas seu  discurso empolgou  especialmente os camponeses pobres que tinham pouco a perder. As cruzadas terminariam   entrando   para   a   história   como   o   maior   movimento   populacional   da   Idade   Média, redefinindo para sempre o mapa do mundo.

 

A ameaça do Islã

No  século  11,  não  havia  dúvidas:  o  Islã  era  a  religião  mais  forte  do  planeta.  Em  menos  de  cinco séculos, desde a morte de Maomé, em  632, a palavra de Alá tinha conquistado a Península Arábica, o norte  da  África,  a  Ásia  Central,  Espanha,  Portugal,  grande  parte  da  Índia  e  até  um  pedacinho  da China.

Não  era  uma  hegemonia  apenas  religiosa.  Os  muçulmanos  superavam  os  cristãos  em  ramos  como  a matemática,  a  astronomia,  a  medicina  e  a  química.  Não  havia  cidade  européia  que  se  comparasse

 

aos  centros  islâmicos.  O  Cairo  sozinho  abrigava  tanta  gente  quanto  Paris,  Veneza  e  Florença  juntas, as três maiores cidades cristãs da época.

Foi  quando  chegou  ao  papa  um  pedido  de  ajuda  do  Império  Cristão  Bizantino.  A  sede  do  império, Constantinopla  (atual  Istambul,  capital  da  Turquia),  era  o  maior  centro  do  cristianismo  naquela  parte do  mundo.  Os  bizantinos  estavam  preocupados  com  a  presença  nas  suas  fronteiras  dos  muçulmanos, naquela  época  governados  por  uma  agressiva  monarquia  de  etnia  turca,  os  seljúcidas.  Originados  de uma  tribo  de  saqueadores  nômades  das  estepes da Ásia Central, os seljúcidas haviam  conquistado os territórios  do  califado  de  Bagdá  no  século  10  e,  após  se  converterem  ao  islamismo,  tornaram-se  a maior  força  muçulmana.  E  eles  queriam  mais.  Já  tinham  tomado  a  cidade  bizantina  de  Nicéia  e estavam a menos de 160 quilômetros de Constantinopla, o equivalente a três dias a cavalo.

 

Naquele  momento,  não  restava  alternativa  ao  imperador  bizantino  Aleixo  Comenos  a  não  ser  apelar para  seus  confrades  europeus.  Só  que,  quando  o  imperador  avistou  a  primeira  leva  de  combatentes cristãos, teve motivos de sobra para se preocupar.

 

Cruzada popular

Se  for  verdade  que  a  intenção  do  papa  era  enviar  um  exército  forte  e  organizado,  formado  pela  elite dos  cavaleiros,  ele  se  frustrou  um  pouquinho.  Uma  série  de  pregadores  populares  começaram  a incitar  o  povão  a  atacar  os  "infiéis".  A  promessa  de  remissão  dos  pecados,  aliada  à  chance  de  pilhar tesouros lendários, era bem atraente. Velhos, mulheres e crianças resolveram se lançar na aventura.

 

O  primeiro  desses  exércitos  foi  liderado  por  um  pregador  conhecido  como  Pedro,  o  Eremita.  Já  no caminho,  seus  seguidores  criaram  tumultos,  massacrando  comunidades  judaicas  em  cidades  como Trier e Colônia, na atual Alemanha.

 

"As  cruzadas  fugiram  do  controle",  diz  a  professora  Leila  Rodrigues  da  Silva,  professora  de  História Medieval  da  UFRJ.  "É  provável  que  muitas  dessas  pessoas  nem  soubessem  diferenciar  um  judeu  de um muçulmano”.

Ainda    assim,    o    imperador    bizantino    recebeu    os    seguidores    do    Eremita    em    Constantinopla.

 

Prudentemente, Aleixo aconselhou  o grupo a aguardar a chegada de tropas mais bem equipadas. Mas a  turba  começou  a  saquear  a  cidade  e  foi  obrigada  a  se  alojar  fora  de  Constantinopla,  perto  da fronteira  muçulmana.  Até  que,  em  agosto  de  1096,  o  bando  inquieto  cansou-se  de  esperar  e  partiu para a ofensiva. Foi massacrado.

 

Somente  dois  meses  após  essa  "cruzada  popular"  começaram  a  chegar  a  Constantinopla  os  primeiros exércitos  liderados  por  nobres.  Esses  homens  estavam  interessados  em  mais  do  que  um  lugarzinho no  céu.  "Nessa  época,  a  Europa  vivia  um  boom  populacional  e  a  pressão  pela  posse  de  terras  era

muito  grande",  diz  a  historiadora  da  Idade  Média  Fátima  Fernandes,  da  UFPR.  "Os  filhos  de  nobres que  não  eram  primogênitos  só  podiam  enriquecer  por  meio  de  um  bom  casamento,  algo  cada  vez mais difícil. As cruzadas abriram uma esperança para eles", diz ela.

 

Até que foi fácil

O  primeiro  líder  nobre  a   chegar  a  Constantinopla,  em  dezembro  de  1096,  foi   o  conde  Hugo  de Vermandois,  primo  do  rei  da  França,  que  veio  pelo  mar  com  seus  cavaleiros  e  soldados.  Logo  depois, vindo  pela  mesma  rota,  aportou  o  duque  da  Baixa-Lorena,  Godofredo  de  Bouillon,  acompanhado  de irmãos  e  primos.  Para  financiar  sua  participação  na  cruzada,  Godofredo  vendera  seu  castelo  -  o  que prova que não pretendia voltar para casa.

Em  abril  de  1097,  cerca  de  40  mil  homens  atravessaram  o  estreito  de  Bósforo  (que  separa  a  Europa da  Ásia)  sem  encontrar  resistência.

 

O  governante  muçulmano,  o  sultão  turco  Kilij  Arslan,  iludido  pela facilidade  com  que  havia  derrotado  os  pobres  cruzados  do  Eremita,  estava  mais  preocupado  com disputas  internas  com  vizinhos  muçulmanos  do  que  com  a  chegada  de  um  novo  contingente  de cristãos.  Como  o  sultão  iria  perceber  apenas  tarde  demais,  esse  seria  o  maior  erro  de  sua  vida. Dessa  vez,  bem  equipados  com  escudos,  armaduras  e  cavalaria,  os  cruzados  cercaram  e  tomaram Nicéia,  devolvendo-a  aos  bizantinos.  Em  outubro  de  1097,  eles  chegaram  a  Antióquia,  conquistando aquela  que  havia  sido  uma  das  principais  cidades  do Império  Romano.  Seis  meses  depois,  os  cristãos partiram  em  direção  a  Jerusalém.  A  essa  altura,  restavam  13  mil  homens,  um  terço  do  contingente inicial.  Após  um  mês  de  cerco,  em  13  de  julho  de  1099,  os  cruzados  conseguiram  finalmente  entrar

na cidade santa. No dia 15 venceram as últimas resistências.

 

Para   a   maioria   deles,  a  conquista  fora  um  milagre.  Menos  de  quatro  anos  após  a  pregação  em Clermont,  os  cristãos  vitoriosos  saíam  em  procissão  para  o  Santuário  do  Santo  Sepulcro,  onde  Cristo teria  ressuscitado.  O  papa  Urbano  II  morreu  duas  semanas  depois,  sem  ter  recebido  a  boa  notícia  da vitória. Mas ele também foi poupado das más notícias que chegariam depois.

 

Derrota após derrota

Foram  criados  quatro  estados  cristãos  nos  territórios  conquistados.  Ao  sul,  o  mais  importante,  o Reino  de  Jerusalém,  governado  por  Godofredo  de  Bouillon.  Um  pouco  acima  estavam  o  Estado  de Trípoli,  o  Principado  de  Antióquia  e  o  Condado  de  Edessa.  Os  chefes  desses  Estados  logo  perceberam que a permanência lá não seria fácil.

Os  governantes  cristãos  logo  perderam  o  apoio  dos  bizantinos,  porque  se  recusavam  a  reconhecer  a soberania   do   Império   na   região   e   não   haviam   demonstrado   nenhum   escrúpulo   em   substituir  os patriarcas  da  Igreja  Ortodoxa  Bizantina  por  bispos  oriundos  da  Igreja  Católica  Romana.  Para  piorar, não  havia  soldados  suficientes  para  a  formação  de  grandes  exércitos.  Logo  após  a  conquista  de Jerusalém, milhares de cavaleiros regressaram à Europa.

 

Em  1144,  a  perda  de  Edessa  para  os  muçulmanos  foi  a  primeira  prova da vulnerabilidade cristã. Com o  objetivo  de  recuperar  o  território  perdido,  o  papa  Eugênio  III  lançou  uma  segunda  cruzada  em 1145,  liderada  por  Luís  VII,  rei  da  França.  Foi  um  fracasso.  O  filme  que  está  chegando  aos  cinemas retrata as cruzadas a partir desse período.

 

Mas   o   pior   estava   por   vir.   Em   1187,   sob   a   liderança   de   Saladino   -   o   sultão   que   unificou   os muçulmanos  e  até  hoje  é  venerado  por  seguidores  do  Islã   no  mundo  inteiro  -,  os  muçulmanos reconquistaram o Reino de Jerusalém. Era o começo do fim.

 

A   perda   de   Jerusalém   foi   um   choque   para   a   Europa   cristã,   apesar   de   Saladino   ter   permitido peregrinações  ao  Santo  Sepulcro.  Dali  em  diante,  houve  pelo  menos  mais  quatro  grandes  cruzadas em  direção  à  Terra  Santa  e  os  cristãos  colecionaram  derrotas  e  vexames.  Um  dos  piores  foi  o  de 1204,   quando   uma   cruzada   acabou   atacando   e   saqueando   a   cidade   cristã   de   Constantinopla, deixando   cicatrizes   profundas   na   relação   entre   os   cristãos   do   Oriente   e   do   Ocidente.   Em   1212, organizou-se  uma  cruzada  formada  por  adolescentes,  a  "Cruzada  das  Crianças".  Seus  participantes, na maioria, terminaram mortos ou vendidos como escravos.

 

A herança cruzada

Mas, afinal, qual foi a herança das cruzadas para o Ocidente?

Segundo  os  historiadores,  elas  deixaram  diversas  marcas  negativas,  como  a  separação  da  Igreja  do Ocidente  e  do  Oriente  e  um  rastro  de  violência  que  fez  aumentar  a  desconfiança  entre  cristãos  e muçulmanos nos anos seguintes.

Em   compensação,  é  inegável   que  a   Europa,  apesar  de  não  ter  conquistado  seus  objetivos,  saiu fortalecida.   As   cruzadas   reforçaram   a   autoridade   dos   reis,   abrindo   caminho   para   a   criação   dos Estados  Nacionais.  Elas  também  impulsionaram  o  comércio  com  o  Oriente,  enriquecendo  as  cidades italianas  que  iriam  ter  papel  fundamental  na  sofisticação  das  transações  financeiras  até  resultar  na criação         do sistema bancário.

 

Além   disso,  reforçaram     a        identidade     cristã  no Ocidente. 

E paradoxalmente,   apresentaram   os   costumes   orientais   aos   ocidentais,   dos   tapetes   às   especiarias. Essas  novidades  gerariam  curiosidade  na  Europa,  o  que  impulsionaria  a  busca  por  outras  terras. Como  o  Brasil.  Mas  isso  tudo  é  só  metade  da  história.  Leia  abaixo  o  lado  menos  conhecido  das cruzadas.

 

A invasão bárbara

Foi  um  dia  de  terror.  Em  15  de  julho  de  1099,  milhares  de  guerreiros  loiros  entraram  em  Jerusalém matando  adultos,  velhos  e  crianças,  estuprando  as mulheres e saqueando mesquitas e casas. As ruas se  transformaram  numa  imensa  poça  de  sangue.  Os  poucos  sobreviventes  tiveram  de  enterrar  os parentes  rapidamente  antes  que  eles  próprios  fossem  presos  e  vendidos  como  escravos.  Dois  dias depois, não havia sequer um muçulmano em Jerusalém. Tampouco havia judeus. Nas primeiras horas da  batalha,  muitos  deles  participaram  da  defesa  do  seu  bairro,  a  Juderia.  Mas,  quando  os  cavaleiros

invadiram   as   ruas,   os   judeus   entraram   em   pânico.   A   comunidade   inteira,   repetindo   um   gesto ancestral,  reuniu-se  na  sinagoga  para  orar.  Os  invasores  bloquearam  as  saídas,  jogaram  lenha  e atearam fogo à sinagoga. Os judeus que não morreram queimados foram assassinados na rua.

 

A  cena  é  narrada  em  As  Cruzadas  Vistas  pelos  Árabes,  do  libanês  radicado  na  França  Amin  Maalouf. Seu  livro é uma tentativa de contar as cruzadas do ponto de vista de quem estava do lado de lá. Para os   cronistas   muçulmanos,   na   verdade,   não   existiram   cruzadas.   As   investidas   cristãs   em   seus territórios  ficariam  conhecidas  como  as  invasões  dos  francos  (porque  a  maioria  dos  cruzados  falava  o francês), um período de terror e brutalidade na história do Islã.

 

Lá vêm eles

A  primeira  investida  dos  francos,  ocorrida  em  1096,  três  anos  antes  do  terrível  ataque  a  Jerusalém, não  chegou  a  assustar  o  sultão  turco  Kilij  Arslan,  que  comandava  os  territórios  do  atual  Afeganistão até  o  que  viria  a  se  chamar,  séculos  depois,  de  Turquia.  Liderado  por  um  tal  de  Pedro,  o  Eremita,  o grupo  que  se  aproximava  de  Constantinopla  com  a  ameaça  de  exterminar  todos  os  muçulmanos  da região  mais  parecia  um  bando  de  mendigos  maltrapilhos.  Entre  os  guerreiros,  havia  uma multidão de mulheres,  velhos  e  crianças  -  um  inimigo  muito  menos  ameaçador  do  que  os  cavaleiros  mercenários que o sultão estava acostumado a enfrentar.

Durante   um   mês,   mais   ou   menos,   tudo   o   que   os   cavaleiros   turcos   fizeram   foi   observar   a movimentação   dos   invasores,   que   se   ocupavam   apenas   de   saquear   as   regiões   próximas   do acampamento   onde   foram   alojados.   Quando   parte   dos   europeus   resolveu   partir   em   direção   às muralhas  de  Nicéia,  cidade  dominada  pelos  muçulmanos,  uma  primeira  patrulha  de  soldados  do sultão  foi  enviada,  sem  sucesso,  para  barrá-los.  Animado  pela  primeira  vitória,  o  exército  do  Eremita continuou  o  ataque  a  Nicéia,  tomou  uma  fortaleza  da  região  e  comemorou  se  embriagando,  sem saber  que  estava  caindo  numa  emboscada.  O  sultão  mandou  seus  cavaleiros  cercarem  a  fortaleza  e cortarem  os  canais  que  levavam  água  aos  invasores.  Foi  só  esperar  que  a  sede  se  encarregasse  de aniquilá-los e derrotá-los, o que levou cerca de uma semana.

Quanto  ao  restante  dos  cruzados  maltrapilhos,  foi  ainda  mais  fácil  exterminá-los.  Tão  logo  os  francos tentaram  uma  ofensiva,  marchando  lentamente  e  levantando  uma  nuvem  de  poeira,  foram  recebidos por  um  ataque  de  flechas.  A  maioria  morreu  ali  mesmo,  já  que  não  dispunha  de  nenhuma  proteção.

Os  que  sobreviveram  fugiram  em  pânico.  O  sultão,  que  havia  ouvido  histórias  temíveis  sobre  os francos,   respirou   aliviado.   Mal   imaginava   ele   que   aquela   era   apenas   a   primeira   invasão   e   que cavaleiros bem mais preparados ainda estavam por vir.

 

Ataque-Surpresa

Em  meados  de  1097,  um  ano  depois  da  vitória  sobre  os  homens  do  Eremita,  os  muçulmanos  não estavam  lá  muito  preocupados  com  a  notícia  da  chegada  de  novos  invasores.  Mas  a  segunda  leva  de cavaleiros  francos  que  marchava  em  direção  aos  seus  territórios  em  nada  se  parecia  com  aqueles maltrapilhos  ingênuos  e  despreparados.  Bem  protegidos  com  armaduras  e  escudos,  os  cavaleiros  que agora  chegavam  não  seriam  presa  fácil  para  as  flechas  lançadas  pelos  arqueiros  turcos.  Quando  os muçulmanos se deram conta dessa diferença, já era tarde demais.

 

Em   poucos  dias,  os  cruzados  invadiram   a   cidade  de  Nicéia   e  continuaram  marchando  como  um verdadeiro  furacão.  Os  exércitos  turcos  mal  acabavam  de  lutar  contra  uma  leva  de  invasores  e, pronto,  chegava  um  novo  contingente  ainda  mais  numeroso.  Em  pânico,  a  população  de  cidades como  Antióquia  avistava  desesperada  a  chegada  daqueles  cavaleiros.  Não  havia  nada  a  fazer.  Alguns muçulmanos  acreditavam  até  que  se  tratava  do  fim  do  mundo.  Relatos  do  período  diziam  que  o  final dos  tempos  seria  precedido  pelo  nascer  de  um  gigantesco  sol  negro,  vindo  do  Oeste,  acompanhado

de  hordas  de  bárbaros.  Se  o  sol  negro  ainda  não  havia  aparecido,  os  bárbaros,  ao  menos,  já  davam as caras.

 

A  nova  ofensiva,  que  culminou  com  a  brutal  invasão  de  Jerusalém,  em  julho  de  1099,  alteraria  para sempre  a  visão  que  o  Oriente  tinha  do  Ocidente.  Os  saques,  estupros  e  assassinatos  de  crianças  não eram  nada  condizentes  com  o  tratamento  que  os  próprios  muçulmanos  sempre  deram  aos  cristãos  e judeus  que  viviam  em  seus  territórios.  Quando  eles  chegaram  a  Jerusalém,  no  século  7,  fizeram questão  de  preservar  as  igrejas  cristãs  e  sinagogas  judaicas. 

 

O  acordo  era  claro:  desde  que  esses povos  não  insultassem  o  profeta  e  não  deixassem  de  pagar  seus  impostos,  eles  sempre  teriam  a liberdade  para  viver  de  acordo  com  suas  crenças  e  suas  próprias  leis.  Os  poucos  casos  de  governos hostis  aos  judeus  e  cristãos  não  passavam  de  exceções  em  longos  períodos  de  convivência  pacífica. Com  a  queda  de  Jerusalém  e  a  derrota para os francos, os muçulmanos aprenderam  uma difícil  lição: enquanto  estivessem  desunidos,  o  futuro  do  Islã  estaria  comprometido.  Para  que  essa  união  fosse possível,    contudo,    seria    necessário    o    surgimento    de    um    líder    respeitado    pela    maioria    dos muçulmanos. Ele apareceu quase um século depois.

 

A reação islâmica

O  homem  que  se  transformaria  no  herói  da  reação  muçulmana  era  um  soldado  curdo  chamado  Salah al-Din,   conhecido   no   Ocidente  como  Saladino.  Até  hoje  seu   nome  é  venerado  como  símbolo  da resistência  contra  o  Ocidente  -  o  próprio  Saddam  Hussein,  conhecido  pelas  atrocidades  cometidas contra  os  curdos  de  seu  país,  citou  várias  vezes  o  nome  de  Saladino  aos  iraquianos  nos  dias  que antecederam a invasão americana.

Décadas   após   a   fundação   dos   reinos   cristãos   no   Oriente,   os   muçulmanos   ainda   não   haviam conseguido  retomar  a  maioria  dos  territórios  perdidos.  As  disputas  entre  os  diversos  califas  e  sultões tampouco  ajudavam  na  reconquista.  Em  1174,  ao  tornar-se  o  soberano  mais  importante  do  mundo muçulmano, Saladino já pensava em como unir os estados islâmicos para uma contra-ofensiva.

 

A  chave  do  sucesso  de  Saladino  era  um  misto  de  profunda  convicção  religiosa  e  pragmatismo  militar. Para  derrotar  os  cruzados,  ele  pregava  a  união  de  todos  os  muçulmanos  em  torno  da  jihad,  a  guerra santa  do  Islã.  Relatos  contam  que  ele  costumava  reclamar  que  os  muçulmanos  não  lutavam  com  o mesmo  fervor  dos  cristãos.  Após  organizar  os  exércitos  e  treinar  novas  técnicas  de  combate,  ele conseguiria   o  que  muitos  consideravam   impossível:  em  1187,  reconquistou  a  cidade  sagrada  de Jerusalém,   que   havia   88   anos   estava   nas   mãos   dos   cristãos.   Após   entrarem   na   cidade,   muitos muçulmanos  quiseram  destruir  a  Igreja  do  Santo  Sepulcro  e  matar  todos  os  cristãos  por  vingança pelas  atrocidades  cometidas  na  invasão  dos  cruzados.  Saladino,  porém,  fez  questão  de  conter  os ânimos dos seus soldados, preservando tanto a igreja quanto a vida dos cristãos.

 

Como  já  era  esperado,  a  queda  de  Jerusalém  foi  um  choque  para  o  Ocidente.  A  cada  derrota  no  front cristão,   novas   cruzadas   eram   enviadas   ao   Oriente,   arrastando   a   batalha   por   décadas.   O   último bastião  cristão  na  região  só  seria  derrubado  mais  de  um  século  após  a  tomada  de  Jerusalém  por Saladino.  O  capítulo  das  cruzadas  medievais  terminaria  apenas  em  1291,  quando  os  muçulmanos expulsaram os cristãos do Reino do Acre, ao norte de Jerusalém.

 

O legado da briga

Durante  muito  tempo,  uma  pergunta  intrigou  historiadores  tanto  do  Ocidente  quanto  do  Oriente:  se os  muçulmanos  saíram   vitoriosos  das  cruzadas,  por  que  os  estados  islâmicos  terminaram  sendo ofuscados, no séculos seguintes, pela ascensão de potências européias?

 

Segundo  a  maioria  dos  pesquisadores,  a  ascensão  européia  tem  menos  ligação  com  as  cruzadas  e mais  a  ver  com  a  debilidade  dos  governos  muçulmanos  da  época.  Essa  fraqueza  estava  ligada  a vários  fatores,  entre  eles  a  falta  de  identidade  árabe  (desde  o  século  9,  a  maioria  dos  dirigentes muçulmanos   era   estrangeira,   como   os   turcos   seljúcidas)   e   a   incapacidade   de   criar   instituições estáveis - como os Estados em formação na Europa Ocidental.

 

O fato   é   que   as   cruzadas   foram   um   marco   nas   relações   entre   ocidentais   e   orientais.   Naquele momento,  os  "invasores  bárbaros"  eram  os  ocidentais cristãos  e  a  grande  potência era a muçulmana. Sobrou  daquela  guerra  um  ressentimento  amargo,  que  extravasa  de  tempos  em  tempos,  como  tem acontecido  com  freqüência  desde  o  ataque  terrorista  de  2001.  Não  são  poucos  os  muçulmanos  que atribuem  o  atraso  econômico  de  seus  países  àquela  agressão  quase  um  milênio  atrás  -  e  que  querem vingança por isso.

 

A vitória  contra  os  francos  e  a  ascensão  de  Saladino  reforçaram  no  imaginário  muçulmano  a  idéia  de que  é  possível  vencer  o  inimigo  com  altivez  e  senso de  justiça.  Além  disso,  as  lutas  contra  os  francos ensinaram  também  que  os  muçulmanos  são  mais  fortes  quando  estão  unidos  -  tese  que  até  hoje permanece  como  uma  utopia  no  Oriente.  Mas  até  que  ponto  as  cruzadas  devem  ser  lembradas  em tempos de guerra no Iraque?

"Não   há   por   que   ficar   buscando   na   história   motivos   para   reacender  animosidades  entre  os  dois povos",  diz  o  historiador  Demant.  "As  cruzadas  marcaram  a  história  por  apenas  dois  séculos.  Já  a convivência pacífica entre cristãos e muçulmanos sobrevive há mais de mil anos".

 

Fonte:  

Autor: Rodrigo Cavalcante - Revista Superinteressante Edição 213 - Maio de 2005.


 

 

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Indice - compilado por Beraldo Figueiredo

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