Indice - compilado por Beraldo Figueiredo

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 308 - ELIPHAS LEVI

Texto retirado da Revista GRANDES MAGOS - Sexto Sentido Especial nº 24 - Mythos Editora.

O ABADE FRANCÊS ALPHONSE Louis Constant ­conhecido nos meios ocultistas como Eliphas Levi Zahed (tradução hebraica de seu  nome), nasceu em 1810, em Paris, filho do sapateiro Jean Joseph Constant, que queria dar ao filho a oportunidade de crescer em meio à sociedade francesa. Como desde menino, Eliphas demonstrava uma clara aptidão para o desenho, seus pais acharam por bem direcioná-lo para o ensinamento religioso.

Essa decisão influenciaria fortemente sua vida: o ascetismo religioso acenderia no jovem a chama da busca pela união divina e o levaria a um caminho cheio de percalços. O resultado dessa caminhada, ainda que alguns o acusassem de ser uma fraude, é que ele seria reconhecido por grande parte dos estudiosos como o maior ocultista do século 19.

Aos dez anos de idade, ingressou no presbitério da Igreja de Saint-Louis em Lile, onde aprendeu o catecismo com o abade Hubault.

Devido ao seu brilhantismo e dedicação ao sacerdócio, foi encaminhado ao seminário de Saint­Nicolas du Chardonnet, e começou a se aprofundar nos estudos lingüísticos de forma tão notável que logo lia a Bíblia em sua versão original. Em 1830, foi cursar filosofia no seminário de Issy. Mais tarde, ingressou em Saint-Sulpice para estudar teologia Terminado o curso de teologia.

Eliphas ascendeu na hierarquia da Igreja e foi aceito nas ordens maiores, ordenando-se subdiácono. Começou a lecionar em um colégio para moças e, seguindo com dedicação a carreira eclesiástica e seus estudos religiosos, escreveu uma peça bíblica (Nimrod) e vários poemas religiosos que projetaram sua imagem dentro da Igreja Contudo, o jovem Alphonse sentiu o peso de tantos anos de reclusão e ascetismo. Ele conheceu uma jovem, pobre, tímida e retraída, que os outros padres haviam se recusado a atender e preparar para a comunhão. Ele aceitou a tarefa e foi tomado por um forte sentimento: Alphonse disse que havia encontrado nela as qualidades da Virgem e ficou tão impressionado, que a visão dessa jovem o marcou pelo resto da vida.

Em 1835, Eliphas Levi foi ordenado diácono, mas em 1836, quando estava para atingir o cargo de sacerdote, confessou a seu superior o que havia sentido com relação à jovem, anos antes. Desse momento em diante, as portas da carreira eclesiástica se fecharam brutalmente para ele, o que lhe causou uma grande consternação e abalou sua visão de Deus e do mundo religioso.

Assim, com a idade de 26 anos, deixou o seminário e deu início à sua jornada no mundo exterior. Mas a tragédia ape­nas começara: ao saber do ocorrido, sua mãe se suicidou. Mais uma vez, ficou profundamente abalado, e o evento foi agravado pelos boatos que começaram a circular a respeito dos eventos no seminário, denegrindo sua imagem: dizia-se que ele havia sido expulso por se envolver com a jovem, o que era uma mentira estimulada pelos inimigos de Eliphas no clero.

Ele percorreu grande parte da França, trabalhou algum tempo num circo e, em Paris, trabalhou como pintor e jornalista, atividades que o levaram a conhe­cer um grande número de intelectuais e estudiosos.

APESAR DE  TUDO, o JOVEM Alphonse não perdera a inclinação para a vida mística e religiosa. Em 1839, ele encontrou um local no qual entraria em contato com o oculto e as leituras consideradas proibidas e perigosas para os cristãos.

Na cidade de Solesmes, havia um con­vento dirigido por um abade que não seguia as regras oficiais da Igreja e que tinha em seu acervo de documentos grande quantidade de livros e textos gnósticos, muitos deles ligados à magia e aos seres de outros planos. De imediato, isso chamou a atenção de Eliphas que, esti­mulado pelos acontecimentos em sua vida, procurava entender as relações entre Deus, o homem, o pecado e o inferno, como seria  de se esperar de um Neófito (ver quadro).

A biblioteca do convento tinha milhares de volumes que eram devorados pelo jovem com afinco. Lia os mais diversos autores em busca das respostas e, num dia, ele chegou a uma conclusão surpreendente acerca da natureza de Deus: para ele, o Mal não poderia durar para sempre, pois isso iria contra a própria nature­za infinita de Deus. Como poderia o Mal ser infinito como o próprio Deus? Isso levaria à conclusão de que o próprio Deus seria o Mal. Daí, ele conclui que todos os homens poderiam ser salvos; afinal, o Mal e o pecado poderiam ser vencidos pela fé e pelo conhe­cimento de Deus. Tal visão iria nortear sua vida dali por diante.

Com essa descoberta em mente, Eliphas partiu novamente, sem rumo e sempre perseguido pelo clero que continuava espalhando mentiras e maledicências sobre ele e os eventos que o levaram a abandonar a vida eclesiástica. Levi teve uma vida itinerante, sem se fixar em emprego algum, e começou a escrever e divulgar suas descobertas místicas, que iam diretamente contra as idéias oficiais da Igreja. Também entrou em contato com os escritos do místico sueco Emmanuel Swedenborg (1688-1772), que Levi dizia serem capazes de conduzir o neófito pelo Caminho Real, embora não contives­sem a Verdadeira Verdade

Depois da publicação de sua Bíblia da Liberdade (1841), Levi foi preso e teve de pagar uma multa considerável para a época. Ao sair da prisão, procurou conhecer as obras dos grandes magos da Idade Média, como Guillaume Postel (1510-1581), Raymond Lull (1232-1315) e Heinrich Cornelius Agrippa .

(1486-1535). Em 1845, aos trinta e cinco anos de idade, escreveu O Livro das Lágrimas, ou O Cristo Consolador, e aprofundou-se ainda mais nas técnicas que envolviam a magia cerimonial e os con­tatos com as forças dos planos divinos.

 

Mas sua vida ainda iria sofrer mais uma série de reveses, tornando-se um labi­rinto que o levaria novamen­te à prisão. Tudo teve início em 1846, quando ele se casou com Marie Noémie Cadiot, com quem ficou durante sete anos. Instigado pela mulher, escreveu panfletos políticos incitando o povo contra o governo e a ordem vigente. Foi condenado a um ano de prisão e ao pagamento de mil francos de multa, acusado de estimular o povo ao ódio e ao desprezo do governo imperial; cumpriu seis meses da pena, graças à in­terferência de Noémie junto ao governo.

 

Em 1847, sua esposa deu à luz uma menina, a quem Eliphas adorava. Era uma criança muito doente e, por várias vezes, esteve próxima da morte. Numa dessas ocasiões, ele usou seu conhecimento dos sacramentos e das artes mágicas e reviveu a menina, numa cerimônia semelhante ao batismo cristão. Mas ela tinha a saúde frágil demais e, para desespero do pai, não resistiu, falecendo em 1854. Essa perda o marcou profundamente e influenciou a forma como seu casamento se desenrolou nos anos seguintes.

Sabe-se que ele colaborou e foi amigo do iniciador do famoso mago Papus. o Bode de Sabbath ou Baphomet, ainda conhecido como bode de Mendes, desenhado por Eliphas 

No entanto, tudo leva a crer que o filósofo polonês Jósef Maria Hoene- Wronski (1778-1853) tenha sido o introdutor de Eliphas na Senda, ou Caminho. Quando Wronski faleceu, deixou para Eliphas um conjunto de manuscritos, enquanto outros foram doa­dos à Biblioteca Nacional de Paris. Relatos de várias pessoas na época falam sobre a inquietação que o acometeu ao receber as obras de Wronski, como se algo esti­vesse próximo a acontecer.

Seu grande amigo: Edward Bulwer Lytton (1803-1873), autor de Zanoni (1842) - considerado o grande romance esotérico do mundo no século 19 - Os Últimos Dias de Pompéia (1834) e A Raça Futura (1870), ficção que se refere à energia conhecida como vril. Os dois mestres teriam trocado informações iniciáticas sobre as sociedades ocultistas, das quais certamente eram os grandes expoentes. Inclusive, consta que teriam realizado trabalhos espirituais em conjunto, desde invocações a contatos com seres de ou­tras esferas de realidade. As anotações que comprovam esses fatos foram parar nas mãos de Papus, e publicadas posteriormente.

 

Nesse material, existem registros sobre três visões de Levi e Lytton: de São João, de Jesus e de Apolônio de Tiana (na qual Apolônio é descrito como um velho). Nessas invocações e visões, teriam entrado em contato com forças que lhes revela­ram os mistérios dos Sete Selos do Apocalipse - que seria a base para a compreensão da Cabala Mágica, escrita em código na Bíblia cristã; conheceram eventos futuros sobre a vida de ambos e sobre a humanidade; conheceram a Magia Celeste e o contato com a hoste an­gelical; souberam das cha­ves dos milagres e de todos os prodígios mágicos; e, parte mais difícil da busca má­gica, como manter e honrar

os saberes conquistados na Senda e na Busca pelo Real Caminho.

 

Ainda em Londres, a si­tuação matrimonial de Eliphas Levi se degradou a um ponto sem retorno, e ele se separou de Noémie. Retornando a Paris, iniciou uma nova e fascinante etapa em sua vida, longe das agitações que marcaram a fase anterior - embora ainda voltasse ao cárcere por escrever contra o imperador Napoleão III, e voltou a se dedicar ao mundo dos estudos e das descobertas mágicas.

Em 1855, ele começou a publicar a Revista Filosófica e Religiosa, e vários artigos seriam posteriormente utili­zados em seu livro A Chave dos Grandes Mistérios.

Nesse mesmo ano, publicou sua obra mais conhecida, Dogma e Ritual da Alta Magia, na qual desvenda as várias faces do saber mágico.

Em 1859, publicou História da Magia, em que relata o desenvolvimento do saber mágico ao longo da história, e que compõe, com os dois livros anteriores, o conjunto de livros ocultistas tidos como uma "bíblia" por seus discípulos e por todos os que vieram a estudá-los posteriormente.

Mesmo cultivando amizades de pessoas tão ricas e ten­do acesso a todo o

Desenho mostra a união da luz e das trevas na criação do mundo

luxo que desejasse, Eliphas manteve uma vida austera, seguindo o caminho da simplicidade, procurando sempre manter o seu espírito em um estado de paz e quietude. Para isso, tomava cuidado com o que comia e bebia, evitando os extremos de calor e frio, e vivia numa casa fresca e arejada.

Também se dedicava a exercícios moderados para manter o corpo forte (o corpo é o "templo primeiro", e deve-se cuidar dele tanto quanto se cuida do templo espiritual, a alma). Aos que adoeciam e o procuravam, sempre recomendava remédios naturais e um estilo de vida como o que levava: sim­ples e dedicado.

Em 1862, publicou aque­la que, segundo ele próprio, era sua obra mais elaborada:

Fábulas e Símbolos. Consta que o livro não teve apenas a erudição de Levi, mas que ele estava inspirado por forças maiores, que.um grande espí­rito de luz entrou em contato com sua alma. Segundo expli­cou posteriormente, ele sabia de antemão o resultado final do livro, o que seria escrito, pois tal "espírito" apresenta­va o trabalho em sua mente, mostrando como a obra seria realizada. As idéias, disse, simplesmente nasciam, parecendo que a própria Vontade Divina agia, movendo suas mãos. Ele se sentia em extrema comu­nhão com a Luz que envolvia seu trabalho. Todavia, quando tudo transcorria calmamente, uma visita mudou a pacata vida de Eliphas Levi.

Suas obras eram conhecidas no mundo todo, e não havia quem não quisesse conhecer o autor, fosse por sua erudição, fosse pelo grande exemplo de Mestre na Arte. Um dia, surgiu um jovem que bateu sete vezes

à sua porta. Era um rapaz bem vestido, com um leve sorriso .no rosto e que, em tom jocoso, cumprimentou-o formalmente, entrando em sua casa como se fosse sua própria.

Eliphas ficou estupefato e, prontamente, procurou desco­brir quem era aquela pessoa, que não se deixou afetar pela pergunta. O jovem disse ao estudioso que, embora não o conhecesse, ele sabia tudo sobre sua vida, tanto seu passado quanto seu futuro, e descreveu vários eventos, citando correta­mente o ano em que se deram. Até aí, nada de extraordinário; afinal, uma pesquisa da vida de Eliphas teria fornecido esses dados ao jovem.

Continuando, o rapaz descreveu os eventos que ocorreram na Inglaterra, as pesquisas de Eliphas e ainda disse que o Apolônio de Tiana que Levi ha­via visto nada mais era do que a visão do próprio Levi (como um duplo etérico, represen­tando o operador). Ainda sem parar de falar, diante de um Levi paralisado, vaticinou que ele poderia falecer devido a um acidente, em 1875, mas que se tudo corresse corretamente naquele ano, ele viveria apenas até 1885.

Dito isso, riu-se e incitou Levi com ambições e alusões à sua grande capacidade mágica e erudição. Além disso, durante todo o tempo, mostrou desprezo pela figura de Cristo e igualou sua própria figura à de Deus.

 

Perguntado quem era, finalmente disse ser ninguém menos que o próprio Deus e Satã, lembrando que Eliphas, anos antes, havia negado a existên­cia dele. Dito isso, partiu sem deixar quaisquer vestígios que pudessem negar ou comprovar sua história.

Em 1865, com a publicação do livro Ciência dos Espíritos, a reputação de Eliphas Levi atingiu seu clímax, consolidando ainda mais o seu nome entre os grandes ocultistas de seu tempo.

Deixou poucos bens materiais, pois sempre viveu como um humilde. Em seu testamen­to, deixou apenas manuscritos e algumas obras de arte em nome de pessoas próximas, e também algo para a caridade.

 

 

O Verdadeiro Caminho :

Eliphas Levi não se dedicou apenas a descobrir e desenvolver suas habilidades mágicas; para o homem sábio, os prodígios e milagres não são o objetivo do caminho verdadeiro, mas uma conseqüência, o efeito colateral das práticas e experiências de contato com o Deus que habita em seu coração. Eliphas procurava a conexão com o saber maior; queria desenvolver seu espírito para que ele rompesse a prisão do dualismo e superasse o universo das ilusões e das aparências.

Seus livros são chaves que ser­vem aos adeptos e iniciados para abrir portas, a partir das quais se pode acessar o conhecimento e sabedoria dos mais diversos planos de existências. Assim, pode-se atingir o ponto crítico que permite o vislumbre e a compreensão acerca da verdadeira kabbalah,

a qual permite entender os mecanismo da vida e da criação nos mais diversos planos de existência.

O pentagrama Mágico de Eliphas Levi

 

Sua vida pode ser encarada como um exemplo muito claro de como se devem portar os mestres da Senda, agindo com humildade, calma e sabedoria, deixando que sua aura permeie o ambiente e transmita a Luz em todas as direções. Desse modo, o mestre permite que cada um, segun­do seu próprio estágio, atinja a compreensão que precisa para ascender aos níveis superiores de entendimento.

Assim foi a vida de Eliphas Levi que, pode-se dizer, foi sua maior obra.

 

 

A Escrita e a Iniciação:

 

Quando escrevemos textos so­bre os grandes iniciados adotamos uma forma de linguagem que diferencia a letra escrita comum da iniciática. Algumas linhas adotam abreviações e signos característicos, o que torna os textos herméticos e acessíveis apenas aos iniciados.

 

Contudo, quando o texto é escrito para o grande público, pode-se utilizar expressões correntes, apenas adotando um diferencial como escrever com a primeira letra maiúscula -, para separar o mundano daquele que está ligado ao Caminho da Retidão, ou Caminho Real.

Por exemplo, quando se escreve Adepto, estamos nos referindo àquele que foi iniciado na Anti­ga Ordem, e não àquele que é adepto de alguma linha ou arte comum e ligada à vida mundana. O mesmo se repete com outros termos presentes nesses textos, como Iniciado, Neófito, Caminho, Senda, entre outros.

 

Para Saber Mais:                 

-Dogma e Ritual de Alta Magia  

-História da Magia.

-A Chave dos Grandes Mistérios           

Eliphas Levi

Editora Pensamento

 

 

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